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Opinião – Quem foi bem no JN e qual o propósito dos debates?

”Uma peculiaridade este ano é o fim do oligopólio das pesquisas eleitorais. Certos veículos da imprensa recusam noticiar pesquisas que não as contratadas por eles”

Parâmetros úteis para responder às questões do título encontram-se num texto de outubro de 2012 de George Friedman, da agência americana Stratfor, The Purpose of Presidential Debates. Corria então muito quente a disputa pela Casa Branca entre o candidato à reeleição, Barack Obama, e o desafiante republicano, Mitt Romney.

Entrevista de candidato a presidente para o Jornal Nacional, da TV Globo, não é formalmente um debate, mas há poucas coisas mais semelhantes a um autêntico debate que candidato a presidente sendo entrevistado na bancada do JN. Não há ali propriamente uma relação jornalista-entrevistado. Há uma disputa aberta pelo poder.

O sujeito tem de ir no JN porque não pode abrir mão da enorme audiência do telejornal. Mas inexiste mesmo almoço grátis, e o preço a pagar é considerável. Corre o risco de ser feito em pedaços por entrevistadores/debatedores sem a menor disposição de serem convencidos de nada, independente dos argumentos que o convidado possa apresentar.

Não seria mais razoável deixar o entrevistado falar com alguma liberdade e expor suas ideias para melhorar o país? Bem, para isso dir-se-á que existe o horário eleitoral compulsório na tv e rádio abertos. E a verdade é que o dia a dia do poder parece mais com uma entrevista no JN que com o desfile de belezinhas dos programas eleitorais.

Gostar ou não da maneira como os entrevistadores/debatedores apertam os candidatos é só questão de gosto. Eu preferiria que houvesse mais tentativas de xeques-mates no mérito, e um pouco menos de exibição de músculos. Aliás, na política, o excesso de halterofilismo costuma ser sintoma de pouco treino para jogar xadrez. Mas é coisa que dá para corrigir.

Num debate eleitoral ou numa entrevista como a do JN, a única coisa importante, para o candidato, é defender sua capacidade de liderar, em primeiro lugar a própria tribo. Ele está ali num duelo, e não pode se deixar matar, ou mesmo permitir que seja ferido com gravidade. Se puder dar uma estocada decisiva e abater o adversário, melhor ainda.

Talvez a principal qualidade exigida do líder político seja não errar –ou errar pouco– quando precisa decidir rapidamente e sob imensa pressão. Nesse aspecto, Ciro, Bolsonaro e Haddad foram os melhores. Até por serem, os 3, personagens dotados da necessária autossuficiência para confrontar essa mesma característica da dupla de entrevistadores.

Autossuficiência e capacidade de agarrar-se às próprias narrativas. A narrativa é a boia do líder político na tempestade. E é também a boia que ele atira aos liderados para se salvar junto com ele. Quem não consegue contar uma história sobre si fica à mercê da história que os adversários contarão. Numa entrevista coletiva, num debate ou numa mesa de bar.

Só ingênuos ou desavisados esperam que um político chegue no JN e diga “puxa, vocês têm razão, eu errei mesmo; obrigado pela dica, da próxima vez vou tentar acertar”. E só desavisados e ingênuos acreditam que os entrevistadores estão ali numa atitude construtiva para oferecer oportunidade real ao entrevistado de expor argumentos. #FicaaDica.

Havia dúvidas sobre se daria tempo de outro candidato petista trazer para ele rapidamente votos que seriam de Lula, se este pudesse concorrer. Mas o tempo na política não é rígido. Parece mais com o tempo de Einstein que com o de Newton. Quanto mais perto da eleição, menos tempo vc precisa para difundir eficazmente uma informação.

Uma peculiaridade este ano é o fim do oligopólio das pesquisas eleitorais. Certos veículos da imprensa recusam noticiar pesquisas que não as contratadas por eles. É um direito. Mas aí têm dificuldade de explicar possíveis repercussões de pesquisas que não disseram quais são.

O Conselheiro Acácio, sempre útil. As consequências vêm sempre depois.

 

 

Por Alon Feuerwerker, 62 anos, é jornalista e analista político e de comunicação na FSB Comunicação. Militou no movimento estudantil contra a ditadura militar nos anos 1970 e 1980. Já assessorou políticos do PT, PSDB, PC do B e PSB, entre outros. De 2006 a 2011 fez o Blog do Alon. Desde 2016, publica análises de conjuntura no blog alon.jor.br.

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