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Opinião – Novidade: o Mito anda pisando em ovos, em vez de atirar

”E o Bolsonaro original pode nunca querer sair de cartaz, é certo. Mas isso não terá nunca a ver com política. Mas com teatro na política. Quando será que termina a atual temporada?”

Neymar não é culpado, o Carlos Alberto da Nóbrega é gênio, se dependesse de mim eu deixava 60 (pontos na carteira de motorista). Já repararam que o presidente Leite Moça está mais doce do que nunca? Convidou uma família humilde de brasileiros para “conhecer a casa” no último final de semana, no caso o Palácio da Alvorada. O presidente Bolsonaro percorreu programas de auditório. Foi ao popularíssimo Ratinho. Foi ao The Noite, com Danilo Gentili, onde abriu a camisa e mostrou sua sagrada cicatriz de Juiz de Fora. Na falta do que apresentar e sem força para impor sua agenda, Bolsonaro passeia por aí: sai a pé do Palácio para ir ao Congresso homenagear o astro do programa A Praça é Nossa. Volta de novo ao Parlamento, dessa vez para levar pessoalmente o projeto… das novas leis do trânsito.

A questão que não quer calar é: onde anda Bolsonaro? O tuiteiro impiedoso e o presidente das retuitadas que assombravam as instituições, por ora, está de folga. Esse que está circulando hoje assiste ao Congresso enfiar-lhe goela abaixo o chamado “orçamento impositivo”, uma peça que retira do Executivo a antiga moeda do toma-lá-dá-cá das emendas parlamentares e, ao fazer isso, reafirma o poder parlamentar. E ele? Fala manso, quase ronrona. O Bolsonaro desses dias anda na miúda esperando, sem criar encrenca, o Congresso lhe oferecer o crédito especial para não ferir a chamada “regra de ouro”. São 246 bilhões de reais de autorização legislativa para fechar as contas do ano e não “pedalar”, motivo que levou ao impeachment de Dilma.

E diante de tantos temas espinhosos, o presidente acostumado a criar polêmicas passou os últimos dias sem atacar ninguém, sem criar crise nenhuma, sem colocar gasolina no incêndio da política. Quem viu o presidente, viu um Bolsonaro andando em ovos e não atirando-os. Até autocríticas sinceras ele fez, como a perante a bancada do Ratinho, admitindo que o governo não tem votos para aprovar a tão propalada e endeusada reforma da Previdência. Mais que estranhamento, o Bolsonaro que anda por aí prova que o outro não é inevitável. Ao contrário: prova que o outro é proposital. E que qualquer Bolsonaro é possível. Depende apenas daquilo que Bolsonaro entender como mais eficiente para alcançar seus objetivos. O atual Bolsonaro atesta um presidente que parece convencido, neste momento, que a exacerbação de tensões e de frentes de conflito só tornará ainda mais inviável o seu governo.

Afinal, a situação da economia está longe de mostrar a exuberância dos planos do ministro Paulo Guedes, as sucessivas polêmicas (muitas delas inúteis) corroeram uma parte do capital de boa vontade com que o presidente chegou ao poder e o fato é que o presidente não tem força para fazer tudo que precisa fazer no campo político rapidamente e com ampla maioria e, ao mesmo tempo, brigar com tudo e todos, como o Bolsonaro que assumiu o governo parecia condicionado a fazer. O Bolsonaro “de raiz”, aquele que inflama e põe fogo no circo, é muito mais divertido do que este destes dias, um tanto insosso, certinho demais. Parece mais um capitão tucano do que um legítimo Bolsonaaaaarooooo.

Mas a apresentação ao país, pelo presidente, de que um Bolsonaro que não torne Brasília irrespirável, que não leve as instituições ao limite do stress, coloca de maneira clara que o Bolsonaro “radical” é tão ficcional e engendrado quanto esse segundo, com paladar de comida de hospital. E isso coloca um dado a mais no tabuleiro da política: Bolsonaro não é uma força da natureza, indomável. É um político profissional que exerce o papel que, a seu ver, melhor lhe cabe. Então, cai de vez a fantasia de que os radicalismos são pendores ideológicos ou formações/deformações de sua trajetória. São apenas figurinos que ele experimenta calculadamente. Outros Bolsonaros são, sim, uma possibilidade. E o Bolsonaro original pode nunca querer sair de cartaz, é certo. Mas isso não terá nunca a ver com política. Mas com teatro na política. Quando será que termina a atual temporada?

 

 

 

Por Mário Rosa, 54 anos, é 1 dos mais renomados consultores de crise do Brasil. Pede que em sua biografia seja incluído o fato de ter sido jurado de miss Brasil e ter beijado o manto verde-rosa da Estação Primeira de Mangueira. Foi o autor do prefácio do primeiro plano de gerenciamento de crises do Exército Brasileiro. Atuou como jornalista e consultor

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