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Opinião – Democracia ferida

”O legado deste período é simples e melancólico: a crença em nossa democracia sai enfraquecida. Que os ventos de outubro soprem os autores desta obra para longe das decisões nacionais”

Cresceram as manifestações dos brasileiros que clamam por uma intervenção militar. A recente greve dos caminhoneiros apenas ajudou a elevar a temperatura da discussão. A situação atual, de crise moral e desgoverno, impulsiona este sentimento. O brasileiro, contudo, está longe de desejar a tomada do poder pelos militares. O sentimento que paira é de simplesmente uma indignação com o estado de coisas. Como a população enxerga a ordem, ética e responsabilidade como valores defendidos pelos militares, acaba por fazer esta correlação torta e perigosa que atenta contra a democracia e a institucionalidade do país.

Esta simpatia evidencia outro fator, ou seja, o descrédito das instituições perante seu próprio povo. Este talvez seja o ponto mais preocupante. O Brasil passa um forte desgaste institucional, que começa na classe política, mas que também atinge outras esferas de nossa sociedade. Os crescentes casos de corrupção que atingiram os principais nomes da política nacional potencializam este fenômeno e abrem brechas para o questionamento institucional da democracia, algo que deve ser evitado.

A greve dos caminhoneiros é mais uma herança dos anos em que se tentou reinventar a economia brasileira por meio de um nacional-desenvolvimentismo terceiro-mundista calcado em uma visão tacanha e limitada de mundo. Subsídios, incentivos, empréstimos. Mecanismos arquitetados sem qualquer planejamento. Se a intervenção do governo faz mal para economia, uma intervenção sem plano consegue ser ainda mais danosa, pois gera desdobramentos ao longo dos anos, como estamos vendo e vivendo.

Isto não exime o atual governo de culpa. Longe de ser reformista, como pretendido, ou ético, como a população demanda, o Planalto primou também pelo amadorismo. Com um time de segundo escalão que cerca o Presidente, com raras exceções, o resultado não poderia ser diferente. Houve confusão, demora, soberba e fraqueza, uma conjunção rara no mundo político. Se vivêssemos em um sistema parlamentarista, Michel Temer já seria passado.

Com a instauração da crise, o governo se viu diante do que chamamos na política de tempestade perfeita, um fenômeno que já produziu dois impeachments. Na política as nuvens movem-se rapidamente e aquele governo que, apesar de impopular, recuperava a economia e possuía uma ampla base no Parlamento, se dissolveu em questão de semanas. Com a economia desandando e sua política desacreditada nos corredores do Congresso Nacional, esta administração entrou em estado terminal. O governo acabou. Chegará até dezembro respirando por aparelhos.

Os desdobramentos dos anos Dilma e Temer ainda perdurarão por muito tempo. Uma economia desarrumada, corrupção sistêmica e a instauração da república do compadrio, principal combustível daqueles que pedem a volta dos militares. O legado deste período é simples e melancólico: a crença em nossa democracia sai enfraquecida. Que os ventos de outubro soprem os autores desta obra para longe das decisões nacionais.

 

Por Márcio Coimbra

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