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Opinião – Brasil, Argentina e as tensões globais

”Preocupantes são as relações do Brasil com a Argentina,  consideradas estratégicas para ambas nações”

A semana começa com a derrota do presidente Maurício Macri, nas eleições primárias da Argentina.

Essas “primárias” – oficialmente chamadas de Paso (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias)- tiveram dez pré-candidatos.

As chamadas “paso” foram criadas em 2009, com a intenção de diminuir o número de candidaturas, que concorriam na eleição. As chapas que obtiveram menos de 1,5% de votos ficaram impedidas de concorrer no primeiro turno, em 27 de outubro.

Na última eleição, quem ganhou as “paso” e o primeiro turno foi o kirchnerismo, com Daniel Scioli. No segundo turno, o vencedor foi Macri.

Todavia, as perspectivas para 2019 são diferentes e tudo indica que Alberto Fernández ganhará a eleição, no primeiro turno. Ele atuou no primeiro ano de governo de Cristina Kirchner Depois rompeu com a ex-presidente e passou a criticá-la.

Fernández é contra algumas bandeiras do kirchnerismo, como o aumento da tributação de grandes empresários.

A prova da força política do “peronismo” na Argentina é o fato do presidente Macri (anti-Peron) ter colocado como seu vice o peronista Miguel Pichetto, presidente do Partido Justicialista no Senado argentino, que tem se afastado  da ala mais à esquerda dos seguidores de  Cristina Kirchner.

A verdade é que o “peronismo” na Argentina aglutina tendências, que vão da direita à esquerda. Portanto, não pode ser encarado como grupo de extrema esquerda, o que favorece o discurso de Alberto Fernández.

Trata-se de cenário eleitoral, portanto, muito diferente do Brasil, onde a cada dia formam-se dois grupos ultra radicais de esquerda (seguidores de Lula e aliados) e de direita (o presidente Jair Bolsonaro).

A contundente derrota de Maurício Macri sacudiu os meios políticos e econômicos, gerando pânico no mercado financeiro portenho: o dólar disparou, a taxa de juros aumentou em dez pontos e a Bolsa teve a sua maior queda em 20 anos, em baixa de 37%.

Colocada a tensão política argentina no cenário internacional, se soma a disputa comercial entre China e Estados Unidos, protestos em Hong Kong, saída do Reino Unido da União Europeia e crise política na Itália. Tudo com a agravante da previsão do FMI de redução em 3.2% do crescimento econômico mundial.

Quais seriam as consequências para o Brasil?

Os Estados Unidos e a China são protagonistas de verdadeira “guerrilha”. Um tem medo do outro. A China exporta U$ 500 bilhões de dólares anualmente para os Estados Unidos.

Se perder esse mercado, a economia entra em colapso, por gerar “excedente” comercial de bens manufaturados, de quase U$ 1 trilhão de dólares.

Quem poderá comprar a produção chinesa excedente? A Europa? Certamente, não. O “Brexit” está fora de controle. Exemplo é o Reino Unido, país milenar e poderoso, que ao eleger um primeiro ministro tresloucado, já sofre consequências negativas, por manifestar  intenção de isolar-se da Europa.

A economia inglesa encolheu, inesperadamente, neste segundo semestre 0.2%, primeira redução negativa desde 2012, com  recessão já a vista.

No outro lado da moeda, os Estados Unidos ainda não conseguem responder  a pergunta feita em 2009, pela então secretaria de Estado Hillary Clinton: “Como negociar com pulso firme com o seu banqueiro?”.

Os chineses “controlam” o déficit fiscal americano de U$ 319 bilhões e a dívida pública de 22 trilhões (valor superior ao PIB do país, que é em torno de 19 bi), que aumentam no governo Trump.  Pequim “controla” esses déficits, através de volumosa carteira de títulos do tesouro americano, que lhes pertence  (“treasures”), no valor de U$ 1.12 trilhão.

Neste jogo de “perde e ganha” sino-americano, o gigante oriental guarda uma “carta na manga”, que seria a alienação nas bolsas mundiais dos seus “treasures”.

Quando os americanos venderam armas à Taiwan, os chineses fizeram essa ameaça  e Washington  recuou. Hillary Clinton tem razão: a China  é o “banqueiro”, que mais empresta dinheiro à Casa Branca.

Neste contexto de desafios globais, o Brasil terá que definir a sua política externa, sem impulsos, ou “patriotadas inconsequentes”. De nada adiantará insistir em olhar “para o próprio umbigo” e seguir aquela máxima dos nossos avós, de que a  vida “é um assunto local”.

A realidade mostra, que não é bem assim. Os valores “locais” existem, como traços de cultura, mas o mundo é uma “aldeia global”, na expressão do filosofo canadense Marshall McLuhan.

O confronto comercial sino-americano poderá favorecer o Brasil e abrir mercado para nossos produtos. Todavia, ainda existem incógnitas. Consultoria financeira inglesa assemelhou a  economia brasileira a um pequeno barco no oceano. Se o mar está calmo, mais fácil. Mas, caso as finanças internacionais sofram abalo, a recuperação econômica será prejudicada, com a desvalorização do real.

Um risco político a considerar é a “propaladíssima amizade” entre Bolsonaro e Trump. Com estilo ardiloso, o governante americano “pechincha”, de acordo com os seus “interesses”.

Essa entrada do Brasil na OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte) e OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) poderá significar a “isca” para amarrar o nosso país aos interesses dos Estados Unidos.

Em tal  hipótese, Trump poderá pedir “lealdade” à Bolsonaro na guerra com os chineses, o que dificultaria aumentar as nossas exportações para o gigante asiático.

Preocupantes são as relações do Brasil com a Argentina,  consideradas estratégicas para ambas nações, sobretudo quando se abre a perspectiva do Mercosul firmar acordo com a União Europeia.

A Argentina é o grande mercado de produtos brasileiros, que significou 15 bilhões de dólares, em 2018. A preocupação nasce do comportamento do Presidente Bolsonaro, assumindo posição de apoio aberto à Macri, agora rejeitado e derrotado pelo eleitorado argentino.

O que irá acontecer?

Com tantas turbulências comerciais, nunca será demais recordar, em relação aos interesses futuros do Brasil, o “temor” do samba de Beth Carvalho: “Nessa briga da maré contra o rochedo; Sou marisco e tenho medo de não ter uma saída”

ney lopesPor Ney Lopes– jornalista, advogado, ex-deputado federal e professor de Direito Constitucional (UFRN) bl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

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