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Opinião – Economia em baixa e ativos em alta, assentam caminho para mais uma crise global

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”Economias fortes desaceleram; dívida global volta aos recordes; saídas conhecidas se esgotaram; Situação atual guarda semelhanças com período que antecedeu a crise de 2008”

Como na grande crise global deflagrada em setembro de 2008, os sinais de que as coisas não iam bem na economia ao redor do mundo começaram a se intensificar antes. O ano de 2007 foi marcado por desaceleração no crescimento em vários países, quedas no valor dos imóveis, nos Estados Unidos, e aumento das tensões em todas as praças financeiras. Quando o banco Lehman Brothers quebrou, o efeito dominó já estava pronto para fazer estragos.

A situação agora guarda semelhanças com aqueles tempos. A derrubada dos mercados de ativos em todas as latitudes, nos últimos dias, ainda não parece ter força para ser o marco de um novo ciclo recessivo na economia global e de perda inapelável do valor dos ativos. Mas reflete uma generalização das convicções de que esse momento chegará. Só não se tem certeza de que será em breve ou um pouco mais para frente.

Quanto ao cenário que se está armando no horizonte da economia global, ele também tem lá suas semelhanças com o ocorrido há um pouco mais de dez anos. Agora como lá atrás, assimetrias entre o nível real da atividade econômica e as alturas a que chegam cotações dos ativos estão na origem da formação de nuvens escuras, capazes de culminar em tempestades.

Razões para as instabilidades que parecem ter assumido o centro dos pregões devem ser buscadas nas próprias saídas da anterior onda mundial de contração econômica. Uma das principais delas deriva do monumental volume de recursos despejados na economia —estima-se que os Banco Centrais de todo o mundo injetaram, em dez anos, mais de US$ 15 trilhões—, na tentativa de reanimar o consumo e a atividade.

Com o mesmo objetivo de fazer rodar a roda dos negócios, ao lado da injeção dessa montanha de dinheiro, os BCs promoveram um intenso e persistente cortes nas taxas de juros de referência. Com isso, acabaram realavancando o endividamento geral e catapultaram o valor dos ativos. Mas, mesmo assim, não lograram promover um aumento de renda capaz de sustentar um período mais prolongado de expansão econômica.

Sinais de desaceleração da atividade econômica são mais evidentes desde meados de 2018. Prova disso é que, ao lado da perda geral de ritmo dos indicadores da produção industrial, desde então FMI e Banco Mundial vêm revisando para baixa suas projeções do crescimento mundial. Em julho, o FMI cortou sua estimativa da expansão da economia global, em 2019, para 3,2% —sinal laranja de problemas nas cadeias produtivas. Foi a quarta redução consecutiva.

A série de resultados econômicos ruins ganhou intensidade no segundo trimestre deste ano. Operaram para isso, de um lado, a já prolongada guerra comercial travada pelo presidente americano Donald Trump contra a China, e, de outro, a perspectiva cada vez mais concreta de um Brexit não negociado.

Depois de muito tempo, as economias britânica —afetada pelo Brexit— e alemã —prejudicada pela guerra comercial— registraram recuos, enquanto a produção industrial da China descia ao nível de 17 anos atrás. Não custa lembrar que a guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas mundiais prenuncia um encolhimento do comércio internacional, com consequências nefastas para a produção global.

Em meio à tendência de desaceleração econômica, por paradoxal que possa parecer, mas com muitos exemplos históricos, os mercados financeiros e de ativos engataram uma temporada de euforia. A Bolsa de Nova York, por exemplo, registrou o melhor primeiro semestre em duas décadas. Nas demais praças, incluindo a brasileira, onde o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, bateu recordes e projetou-se acima de 100 mil pontos, os números não foram menos lustrosos.

O combustível dessa escalada é o mesmo que promoveu uma intensa realavancagem de dívidas —taxas de juros muito baixas ou mesmo negativas. O endividamento global, no primeiro trimestre de 2019, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), entidade que reúne a indústria financeira mundial, somadas as dívidas de governos, empresas e pessoas, alcançou US$ 246 trilhões, o equivalente a mais de quatro vezes o volume de bens e serviços produzidos no mundo em um ano.

Um quadro de dívidas em ascensão e economia em descenso só pode alimentar inseguranças e temores de um novo crash ou, no mínimo, de um novo ciclo de crescimento insuficiente. Esses temores se traduziram em algo aparentemente inusitado: o investimento em papéis seguros, mas com rendimento muito baixo e até negativo.

É impressionante a evolução mais recente da curva das inversões em títulos públicos com juros negativos, o que reflete medo de colapsos futuros nos mercados de ativos. De meados de 2018 até agora, o volume aplicado em papéis nos quais os investidores já sabem que vão perder alguma coisa nos rendimentos, mas garantindo o principal, dobrou, saltando de US$ 6 trilhões para US$ 12 trilhões.

Até aqui, a reação dos Bancos Centrais tem sido aplicar mais do mesmo, reforçando medidas de relaxamento monetário diante das indicações de desaceleração. É nesse ponto que as crises de 2008 e a que parece se avizinhar deixam de se tocar.

A saída a que se recorreu da última vez para animar a economia está praticamente esgotada. Afinal, depois dos juros negativos, nesse mesmo departamento da política monetária, o que pode vir a ser usado?

Não é por coincidência que novas abordagens e heterodoxias sobre estímulos fiscais e monetários, caso da Moderna Teoria Monetária (MMT, na sigla em inglês), estão ganhando adeptos. Mas a verdade é que uma fórmula segura para evitar o pior ainda não foi encontrada.

Por José Paulo Kupfer, 70 anos, é jornalista profissional há 51 anos. Idealizador do Caderno de Economia do Estadão, lançado em 1989. É graduado em Economia pela Faculdade de Economia da USP